OPINIÓN

Da guerra mediática contra a Síria

Joseph Ghanime
A incoerência, imprecisão e parcialidade das notícias que nos chegam sobre a Síria andam a levantar uma onda de assanhamento contra a república árabe, sob o pretexto da defesa dos direitos humanos e da democracia.
As fontes da informação que referem jornais como The GuardianEl País ou Público em muitos casos são confusas e pouco fiáveis: um ativista polos direitos humanos, um membro da oposição, um correspondente em Israel…
Omitem-se ou marginalizam-se todos os dados que não encaixam no relato de demonização sistemática do país.
Não passam nos ecrãs das nossas TVs as concorridas manifestações em apoio das reformas propostas por Bashar el-Assad e contra a ingerência ocidental; fala-se muito de manifestantes pacíficos, sem referir o caráter armado e extremanente cruento de muitas ações de contestação; como tampouco se refere o tráfico de armas desde o Líbano, com o carimbo do islamismo pró-saudita de Saad el-Hariri; nem se arejam as revelações do Wikileaks sobre o financiamento norteamericano a opositores sírios.
Isso, para não falar do recurso à mentira: um bloguista escocês que se fazia passar por ativista gay em Damasco; a falsa demissão da embaixadora síria em Paris, depois desmentida; a atribuição à Síria de imagens de manifestações filmadas noutros países, e por aí fora.
Prescinde-se, ainda, dos necessários esclarecimentos históricos e geopolíticos: a ideologia panarabista e laica do partido Baaz, fundado por um cristão e um sunita; o apoio dado à causa palestiniana; o milhão e meio de refugiados da guerra do Iraque que a Síria acolheu; os hábitos de convivência entre um abano amplo de cidadãos de diversas crenças – uma malha pacientemente tecida, da qual se prezam muitos sírios e sírias.
A imprensa desfia rudemente essa urdidura e el-Assad é-nos apresentado como um simples bandeirante da comunidade alauíta.

Que na Síria – como nos EUA e na UE – há autoritarismo e inaceitáveis violações de direitos humanos, isso ninguém nega; que o povo quer uma mudança, o próprio Bashar parece reconhecer. Ora, por trás de toda esta campanha mediática antisíria, levanta as orelhas um lobo que quer arrastar o país para o caos de uma guerra confessional e sectária; uiva o cachorro predador dos EUA, Inglaterra, França, Arábia Saudita, Turquia e Israel.
O veto russo e chinês impediu até agora uma invasão da OTAN – já proposta por Dick Cheney em 2007, e que por cá parecem estar mesmo a pedir os jornalistas progres. As primeiras vítimas de um atropelo dessa ordem seriam as minorias do país, entre as quais, paradoxalmente, se encontram os cristãos do Oriente Médio – daí que Raï, o patriarca dos maronitas, fosse à França reclamar de Sarkozy uma viragem radical de política, no sentido de procurar para os problemas do Oriente soluções geradas na própria mentalidade do Oriente.
Seremos levados a desejar uma nova Guerra Fria para livrar a Terra do Sham de uma chacina como a que testemunhamos no Iraque e na Líbia?
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Joseph Ghanime nasceu em Santiago de Compostela em 1973 e cresceu na Corunha. Atualmente dá aulas de português na Escola Oficial de Idiomas de Lugo.
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