Estranha forma de lampreia
Ao estudar a variante portuguesa da língua, sempre os galegos trocamos alguma letra:
Eu fez um poema à Ponte da Chanca – por eu fiz.
– Ela fiz um poema à Ponte da Chanca – por ele fez.
– Eu esteve a falar com o esquio no meu pesadelo – por eu estive.
– Ele estive a falar com o esquio no meu pesadelo – por ele esteve.
Corrijo amiúde estes erros nas aulas:
– Ó Paulo, se você diz eu fez um poema à Ponte da Chanca, a gente conclui que o poema foi feito de forma simultânea por você – Eduardo – e algum outro poeta heterónimo no seu nome.
Os estudantes não querem que os colegas de turma lhes suspeitem personalidades múltiplas. O senso comum obriga a escolher entre estar em cima da Ponte da Chanca ou ficar-se cá em baixo, refrescando os pés nas águas do Rato: as duas cousas ao mesmo tempo, não dá.
Porém, o Estranha Forma de Vida da Amália Rodrigues deixa-nos ao mesmo tempo lá em cima – no trem regional que vai para Monforte – e cá em baixo, pedindo sossego às truitas do rio:
Que estranha forma de vida
tem este meu coração
vive de vida perdida
quem lhe daria o condão
que estranha forma de vida.
Coração independente
coração que não comando
vives perdido entre a gente
teimosamente sangrando
coração independente.
Se a vossa consciência também vai direita pola rua do Progresso, enquanto o coração se vos desgoverna pola Piringalha, não o ponhades no currículo vitae. Os psicólogos dos departamentos de Recursos Humanos andam bem formados para detetar atempadamente esse tipo de patologias.
Soubessem os corvos de Bruxelas desta nossa duplicidade, e enviavam-nos uma troika de psiquatras, sociólogos e pedagogos para reduzir o cardume andante de cada um de nós a uma personalidade única e intransferível.
Suspeitassem no Conselho da Europa que deixamos sangrar este fado de Amália nas aulas, e expulsavam-nos do Quadro Europeu Comum de Referência para as Línguas.
Mas lixem-se todos: o que fai falta agora, e na hora do resgate à banca espanhola, é citar o Agostinho da Silva de anos atrás:
Quando se fala da adesão de Portugal à CEE e cousas parecidas, eu só vejo aquilo, como um desembarco de Portugal na Europa para ajudar a coitada da Europa, a ver se tem algum jeito de sair dessa confusão em que ela anda metida.
Amém.
E eu ando metido na confusão do meu telemóvel, que sempre me acompanha:

Séculos de tecnologia figérom falta para chegar a este anjo da guarda digital. Quantos de tempero espiritual cumprírom para que a Amália despejasse assim o seu coração?
Eu não te acompanho mais
Pára, deixa de bater,
Se não sabes aonde vais,
porque teimas em correr
Eu não te acompanho mais!
Unifico-me, por profissionalismo, para retomar o trem das aulas:
- O que é que tu fizeste ontem, Paulo?
- Ontem eu fiz um sarrabulho de truitas do Rato para o meu esquio desempregado.
- Ótimo, eu fiz é corretíssimo português. Agora já aprendeste o passado simples. (mas a lampreia que governa o espírito da língua alevanta a voz) MANDEM A CONCORDÂNCIA SUJEITO-PREDICADO ÀS URTIGAS!Que luguês e portuguesmente falando, a gente dirá com maior contentamento:Ontem o esquio veremos de vida perdida, por esse Minho abaixo, no comboio dos Olhos Grandes descendentes.
Que estranha forma de lampreia – alíngua que não comandamos.

















O Joseph abre um caminho insuspeito para entender a profundidade da crise em Portugal. Se todo o português tem que manter três ou quatro heterónimos, entende-se a bolha imobiliária, os sobredimensionamento bancário, a sobrevalorização da habitação, etc. Talvez a troika seja afinal uma só Pessoa: Fernando (Fernando Pai, Fernando Filho, Fernando Espírito Santo). Mas receio que o engano dos nossos alunos que não sabem se eu esteve ou ele estive, não seja tanto esquizofrenia fadista como querência (ou mesmo drogodependência) pelo «o» final do castelhano como marca de terceira pessoa