OPINIÓN

Alemanha ensanguentada

 Joseph Ghanime

 

A inconsequência da social-democracia facilitou a chegada do fascismo.

 

Não costumo ler à procura de profecias ou consignas – mas a Alemanha Ensanguentada do Aquilino Ribeiro véu buscar-me essa sentença nos miolos.

 

Aquilino Ribeiro: da Beira Alta (1885) a Lisboa (1963). Homem de fugas e exílios. Andou por Vigo. Alinhou com os pequenos e contra grandezas. Mais de vinte romances e novelas, traduções, biografias. E as tílias quase centenárias do átrio da casa de Soutosa, que visitei em janeiro.

 

Alemanha Ensanguentada arranca de comboio, de Herbesthal a Berlim, a 20 de setembro de 1920; finaliza em Amiens, na quinta-feira 15 de novembro – e entrementes: de Berlim a Parchim; Schwerin; Hildesheim; Hameln; Pyrmont; Hanovre, Hamburgo; e finalmente aos campos de batalha da Primeira Grande Guerra: Béthune, Lacouture, Bapaume, estrada de Arrás, Courcelette, estrada de Amiens.

 

O livro véu ao prelo em 1935. Aquilino lembra uma Alemanha exangue, sem fôlego, governada só por fantasmas, que só um cego não veria tomar-se daquela febre que devia conduzir a Hitler e ao estado de exaltação patriótica que apavora o mundo. A afeição polo país não cega o autor, que vê no orgulho militarista uma planta geradora de monstruosos ramos.

 

Entretanto, os social-democratas não socializavam a grande indústria nem expropriavam latifúndios. Pelo contrário, semelhante atonia acabou por dar fôlego à reação, chamando à vida os exânimes burgueses e os aristocratas.

 

Já na França, La Couture, terra regada de sangue português. Numa coluna, ao pé duns versos mutilados de Camões, lê-se: Hommage du Portugal à la France Immortelle. Aquilino indigna-se: os filhos de Portugal ainda homenageiam a França depois de terem entregado as vidas para libertá-la dos alemães.

 

A Alemanha mais aprazível do livro é a de Parchim e campos de Meclemburgo, onde Aquilino topa, debaixo de umas tílias, labregos polacos – irmãos gémeos dos de Portugal: Ratinho da Beira, Lapuz da Polónia, mujique, são a mesma face projetada em três espelhos.

 

Grete Tiedman, a primeira esposa de Aquilino, também foi de Meclemburgo. Na casa da Soutosa, lemos a certidão de casamento e o cartão postal com uma igreja de tijolos do Báltico.

 

Voltamos para o átrio de tílias, quase enxergando a Serra da Estrela. Vejam aqui um loureiro e um São Pedro de enorme chave. E o palavreado então envereda pola grande depressão que flagela Portugal.

 

Que estas Terras do Demo não são pródigas. Que nas cidades, cada vez mais fome. Que aqui, em Soutosa, a gente se desenrasca com as hortas. Que as batatas, mais barato comprar do que plantar. Que o povo cada vez mais fiscalizado. Que para matar um boi, mais de 20 euros de portagens até Aveiro. Que ladrão de maçãs vai ao cárcere, enquanto a grande roubalheira é chamada de desvio.

 

A traição da social-democracia desbroçou-lhe o caminho ao novo totalitarismo de banda larga.

 

Que as tílias de Meclemburgo se apiedem dos filhos dos mujiques – deste eucaliptal à beira do Atlântico plantado.


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Joseph Ghanime nasceu em Santiago de Compostela em 1973 e cresceu na Corunha. Atualmente dá aulas de português na Escola Oficial de Idiomas de Lugo.

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